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"Disse-me que já tinha vivido tudo..." por Ana Beja

Disse-me que já tinha vivido tudo. E que tinha mais anos para trás do que para a frente. Também pouca diferença lhe fazia. O que teve de ser feito, fez. Agora era passado. Pretérito perfeito. Ou imperfeito, diria eu. Porque isto de se estar no fim da vida não deve ser nada fácil. De olhar vazio na conversa, acrescentou que a vida passa num instante e que a devemos aproveitar todos os dias. Resta-lhe a fé. Companheira de longa viagem e herança deixada pela mãe. A única, também. Já que eram pessoas de parcos recursos, mas honestas! Eram 8 irmãos. Conheceu 6. Dois perderam a vida em pequenos. Foi aí que a fé preencheu o vazio do coração da mãe. Havia respeito. Todos se sentavam à mesa à mesma hora. O pai na cabeceira. A mãe ao lado. Primeiro a mãe servia o pai. Depois os filhos. Por ordem decrescente. No fim sobrava-lhe o resto. Sempre chegou para todos. Afirmou com a voz segura. Não estudou. Não havia tempo para estudos. Também nunca fui muito bom com letras. Sei o essencial, afirmou. Fui até à 4º classe com o Professor Silvério e levei muita canada! Ainda hoje as letras se embaralham…mas já deve ser dos olhos…94 anos a puxar por eles! A idade pesa, sabe? Diz-me ele de olhar posto no horizonte. O tempo encarrega-se disso. Já não sou o que era. O corpo começa a dar sinal, pouco a pouco. Primeiro é uma dor aqui, depois outra ali…remédio para isto, remédio para aquilo…mas não há medicação que nos cure da velhice. E dela não podemos fugir! Aparece devagar, quase nem se dá por isso. Antes lavrava um pedaço de terra enquanto o diabo esfregava um olho! Agora está aqui tudo por lavrar. Se a minha Maria visse uma coisa destas…Já partiu faz agora 17 anos. Fiquei sozinho desde que ela foi. Perdi a minha companhia. Fui-me abaixo desde que ela foi para o céu. Sim, que a minha Maria foi para junto Dele. Os filhos têm as vidas deles. Pouco querem saber disto. Tenho dois na Alemanha e uma na Suíça. Vêm cá no verão. Para as festas da aldeia. Eu nem saio nesses dias. É cá um barulho! Mas gosto que venham cá, diz agora com o rosto iluminado. É a primeira vez que lhe vejo o sorriso. Aberto, enrugado e queimado pelo sol. Despeço-me com um abraço. Agradeceu por o ter ouvido. Já quase ninguém me ouve, terminou. Eu ficaria ali a ouvi-lo até quando lhe apetecesse. Prometo que se um dia lá voltar o irei procurar. Respondeu que ficará no mesmo lugar. À espera. Não de mim, mas do dia em que voltará a ver a sua Maria. Ana Beja

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