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O regresso dos resineiros _ por Jorge Santos

O regresso dos resineiros

Há bem pouco tempo quando viajava, deparei-me com um cenário majestoso de amplos pinhais resinados no horizonte, que me trouxe memórias e saudades que jamais esquecerei dos tempos de criança. Cada pinheiro estava enfeitado com o tradicional púcaro de orelhas. Isto encheu o meu coração de alegria e nostalgia depois do quase desaparecimento desta actividade e desta profissão.

Pertenço a uma família de resineiros, que empregava muita gente da zona, principalmente em épocas sazonais, oferecendo o salário em troca do trabalho duro e árduo no meio de pinhais inóspitos e acidentados. Pois lá na terra a fonte de rendimento de muitas famílias revertia deste trabalho cansativo que se estendia de sol a sol.

 Desde pequenino que eu adorava acompanhar o meu pai e a sua malta nestes afazeres, não só pela liberdade de brincar e explorar a fauna, mas também pela curiosidade pedagógica e didáctica, o que me envaidecia, e principalmente por conhecer todos os utensílios e para que serviam.

Como disse, era uma actividade com várias etapas sazonais, que iniciava no Outono com a chamada “desencarrasca”, termo que os resineiros utilizavam, que confinava no cortar a grossa casca do pinheiro com um machado de orelha grande, que proporcionava dois tipos de corte: a parte cortante do machado era para os pinheiros onde a tiragem da resina iria ser feita na parte inferior, e a parte cortante da orelha era para aqueles em que a tiragem seria feita numa parte mais alta.

Este processo era seguido de imediato pela “equipa das bicas ou do caixote”, composta também por homens, uma vez que a sua força física era preponderante não só pelos cortes que teriam de fazer no pinheiro com a talhadeira batida pelo maço de lenho, o qual pesava 1 ou 2 kg, mas principalmente pelo peso do caixote de madeira que carregavam às costas, atulhado de utensílios de ferro e mais alguns componentes imprescindíveis. 

Nos dias de outono marcado e inverno cerrado, recordo-me perfeitamente de ver o meu pai e os seus homens saírem com o que eu apelido de “kit Resineiro” composto por ferro de renova e botija de ácido que era usada para acelerar o processo de sangria dos pinheiros, e claro, o inesquecível vestuário corrompido e esburacado pelos salpicos de ácido que caíam na roupa.

Como o meu pai me educou para a vida, desde cedo tentou que eu soubesse o quão duro era esta profissão, e para que eu não tivesse que lhe seguir as pisadas fez questão que eu provasse um pouco do que custava esta árdua tarefa, e ao mesmo tempo para me mostrar que seria muito melhor dedicar-me aos estudos. Então, em pleno verão, época da colha, dava-me um enorme balde de latão, que chamávamos de lata da colha, e inseria-me no meio das mulheres que esvaziavam para as latas os púcaros a transbordar de rezina. E que depois esta era transferida para os bidões antes de rumar à fábrica.

Como era duro ver as mulheres de rodilha na cabeça com as mãos de pele fina encrostadas de resina, e o suor a escorrer pela cara por causa de um trabalho árduo feito na época mais calor. Custava tanto, porque na época não havia empregos como há hoje.

Portugal foi o maior exportador de resina na Europa e o segundo no mundo. Mas tudo acabou com a crise que quase fez desaparecer o setor, e em que muitas famílias foram obrigadas a emigrar para subsistir, incluindo a minha que ainda hoje não regressou.

Mas como se costuma dizer “não há fome que não dê em fartura”, espero eu, e depois do quase desaparecimento da actividade, aos poucos a indústria volta a postar na extracção da resina que pode ser utilizada em diversos produtos, e que certamente só vem fortalecer a economia, criando emprego e proporcionando a fixação populacional nas zonas do interior e rurais, trazendo de volta os verdadeiros e insubstituíveis vigilantes florestais, que são os resineiros.

Defendo que esta actividade, tal como foi feito com outras, carece de incentivos que estimulem o seu desenvolvimento e expansão, não só por termos uma vasta densidade de pinhal, mas também para aproveitarmos as potencialidades que outrora vingavam deste, e que faziam de nós um país pioneiro na exportação de resina.

Pois bem, que venham os resineiros!

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